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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De sombrinha no sol

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Anos de verão na Bahia me mostraram que eu não nasci pra me bronzear. Sou do tipo que fica vermelha e depois descasca. Então, desde a adolescência eu decidi que adoro ser branquinha e nunca me exponho ao sol mais do que o necessário. Em Curitiba, ser assim não é muito difícil. Ou não era. Porque de poucos anos para cá, nosso verão deixou de ser de 24 graus, para ser um sol de matar, digno de qualquer nordeste. Só de andar na rua, passei a ostentar por aí aquele belo bronzeado de pedreiro - exibindo onde começa e termina a camiseta.

Não sei quando, mas comecei a olhar com inveja as velhinhas que andam de sombrinha pela rua. Elas sim, carregam sua sombra aonde quer que vão, enquanto os outros se acotovelam nas marquises. Passei então numa loja e comprei uma sombrinha muito fofa para mim. Hoje, com um solão de rachar, decidi dar uma de velhinha e saquei minha sombrinha em pleno centro de Curitiba.

Na realidade, andar de sombrinha é menos legal do que parece. Não é como uma marquise. O tecido não isola o sol tanto assim, por isso continua quente embaixo. É uma coisa a mais nas mãos; nos momentos que ventava, eu não sabia se segurava a sombrinha ou o meu vestido. Apesar de estar preparada pra tudo - risos, olhares estranhos, engraçadinhos dizendo que não estava chovendo, etc - nada de agressivo me aconteceu. Algumas pessoas olharam para mim sim, mas o seu olhar transmitia mais um "boa idéia a sua, quem dera!" do que outra coisa. Dois adolescentes que disseram que eu estava "tão bunitinha". No mais, tão ignorada como sempre.

Agora estou em casa, fresquinha, com a pele branca de quem não pegou sol. E conto essa experiência pra estimular você, leitora de todo esse Braziuziu, a andar de sombrinha também. Chega de pegar sol na rua, diga sim às sombrinhas no calor!



Off-topic: Não tenho gostado das minhas últimas postagens. É que falta apenas menos de 1 semana para a estréia e não tenho pensado em muita coisa a mais do isso.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Limites

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Existem certos limites que não podem ser ultrapassados nunca, em hipótese alguma, de jeito nenhum e jamais. Coisas que não podem ser ditas. Não se pode voltar atrás no que foi falado; pedir desculpas não é o mesmo que nunca ter feito. Algumas palavras são imperdoáveis e só podem ser ditas se a intenção é acabar com tudo. A intimidade tem esse perigoso efeito, de possibilitar atingir o ponto certo com pouco. Descontrole é temporário, mas a falta de respeito não. Do primeiro abuso, o relacionamento segue ladeira abaixo. O melhor a fazer é encerrar o ciclo, arrancar o mal antes que o hábito torne tudo mais difícil. Eu, pelo menos, penso assim.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lindo, Artur!

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O Alessandro Martins postou o link como "Questão de treino". E é sob esse mesmo título que o video está no site de Yoga que o Alessandro indicou. Sinceramente, achar que isso é questão de treino me dá a mesma sensação de achar que basta fazer ballet para colocar a perna na orelha. Nunca sei se é ignorância, propaganda enganosa, ingenuidade... Porque o fato é que nem todo mundo nasceu para fazer certas coisas com seu corpo- o que, pra mim, só aumenta minha admiração perante a beleza de algumas movimentações.

Quem postou o video parece que não quer ser visto, porque ele tem uma única tag: Artur. O pessoal do De Rose acha que é questão de treino. Eu chamo isso de dança contemporânea de altíssima qualidade. Seja lá como for, veja e se impressione também:

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Terríveis criaturas chupadoras de sangue

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Eu sou a prova que vampiros não existem. Se existissem, estariam disputando a dentadas esta blogueira que vos fala. A prova disso é a atração irresistível que exerço sobre seus irmãos menos evoluídos, os pernilongos. Sempre foi assim. Podem estar dez pessoas num local aberto, e todos os pernilongos picarão a mim. O pior é que sou meio alérgica. Quando eu ia pra Salvador, ficava com tantas picadas que as pessoas olhavam pra mim de modo estranho, com medo que eu estivesse com alguma doença contagiosa.

Sou medrosa e tenho pudor de matar quase todos os insetos, menos os pernilongos. Odeio todos, profundamente. Nada pior do que acordar de manhã cedo e cruzar com um deles, bem gordinho, e ter certeza de quem foi a causa da felicidade dele. Nas noites interrompidas, tenho vontade de fazer um acordo: "Olha, vai lá na minha panturrilha e se sirva à vontade. Desde que você não venha zumbir na minha orelha!" Dizem que ele faz isso para ver se a gente está dormindo e ter menos chance de morrer ao tentar se alimentar. Pois eu digo que isso é burrice. Pernilongos são uma das poucas coisas que me despertam do meu sono de pedra. Cansei de pular da cama no meio da madrugada pra caçar esses malditos. O Luiz está de prova, porque o coitado não ouve nada mas acorda quando eu acendo a luz.

Dicas de quem entende desse assunto:
  • a melhor coisa pra evitar que eles entrem em casa é fechar tudo no fim do dia;
  • a melhor coisa pra matar pernilongo é ter um inseticida em spray logo à mão;
  • a melhor coisa pra eles não te atacarem de noite é ventilador;
  • a melhor coisa pra deixar de ter sangue delicioso é tomar Complexo B. Descobri isso com o elenco que foi gravar Pantanal. Complexo B: não vá para o mato sem ele!

domingo, 15 de novembro de 2009

Glamour zero

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Me sinto uma mentirosa ao dizer que sou bailarina porque, com a minha idade, parece que sou uma veterana e sei dar 32 fouetés. Dizer que eu sou dançarina é complicado, porque aí parece que eu danço axé ou coisa pior. Como eu faço aula de ballet quase todo dia, então dá pra dizer que sou bailarina, né? Por mais que eu não me sinta merecedora do título.

Quando assumi isso em público, percebi que entrei num outro imaginário. Dizer que eu sou socióloga nunca arranca mais do que um "humm". Ao dizer que sou escultora, ou as pessoas ficavam com medo de serem obrigadas a elogiar algo feio, ou achavam que eu era algum tipo de criatura sensível. Descobri que dizer que sou bailarina equivale a dizer que sou magra, delicada, alongada, e - talvez por tudo isso - acrobática na cama. Nesse mundo diferente onde eu estou, minha ocupação faz o olhar dos outros brilhar.

O que vivo no meu dia a dia é a experiência de estar sempre suada, usando meias calças rasgadas, sentindo dor. Dor ao fazer força nas aulas, dor nos alongamentos mais dolorosos que eu já vi, dor por repetir esse processo em cima de músculos já doloridos. Uma dor que nunca é mostrada na face, o que faz com que alguns pensem que a aula de ballet é levinha. Já vi que saio ajeitada na rua por pura teimosia, porque o ideal seria vestir apenas roupas que não amassem na mochila e que possam ser colocadas facilmente sobre o collant. Estar magra e bonita deixou de ser assunto de foro íntimo pra se tornar uma obrigação- ponto na qual estou em desvantagem perto das meninas. Eu que fazia academia pra comer livremente, agora faço exercício o tempo todo e me preocupo ainda mais com calorias.

Quando descobri que bailarinas não têm fim de semana, até eu me assustei. Desde agosto meus sábados estão sempre ocupados e meus domingos não me pertencem mais. No início, ficava exausta demais até pra conversar; quanto tudo terminar, sei que me sentirei um animal enjaulado durante dias, até meu corpo se acostumar com doses menores de endorfina. Às vezes dá vontade de jogar tudo pro alto, mas e a responsabilidade com o elenco? Nem posso reclamar de não apenas não ganhar nada como ainda tirar do meu bolso, porque é assim com quase todo mundo. Pelo menos aqui no Brasil. Bailarino ganha tão mal, mas tão mal, que quem está de fora nem imagina. O salário inicial de um bailarino do Balé Guaíra, a melhor e mais tradicional companhia do Paraná, é na faixa dos mil. Quantos anos de estudo pra conseguir passar no teste? Pelo menos uns dez.

A bailarina glamurosa do palco é apenas um instante. O resto do tempo, ela estará suando o collant.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

À noite, de fusca

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Ter um carro para sair era ótimo e o fato de ser um fusca não tinha a menor importância. Éramos duas universitárias independentes e que adoravam dançar. Minha amiga, como minha mãe definiu, dirigia como um homem: corria, furava sinais, arranjava atalhos, ou seja, não tinha aquela hesitação feminina ao volante que enfurece os homens. Isso sem falar que morávamos perto. Então era comum ela me ligar pra dizer "vamos?". Eu roubava o meu cofrinho e ia.

Era comum irmos pra Santa Felicidade, num lugar que depois de reformado passou a se chamar Santa República (uma bala pra quem lembrar do nome antigo!). Na época ele era carinhosamente chamado de UTI - Última Tentativa dos Idosos. Ou apenas Baile do Desmanche. O bom de ir lá é porque era um ambiente onde se dançava dança de salão. Como nossa prioridade não era caçar, o fato de ter outro público era até melhor.

Estavamos a caminho do Santa República e minha amiga resolveu pegar um dos seus famosos atalhos. Era um caminho para Santa Felicidade por detrás do Parque Barigüi, uma região tranqüila e bastante arborizada. Num trecho escuro, nossa conversa foi interrompida com roncos de motos, que ficaram cada vez mais próximos. Olhei para os lados e em pouco tempo ficamos cercada de Harleys Davidson. Como mariposas, eles surgiam ao nosso lado, com seus motoqueiros barbudos e paramentados, diminuiam um pouco a velocidade e depois seguiam em frente.

Quando voltei a olhar pra minha amiga, ela estava mudada. Com uma expressão séria, tensa, olhando fixamente para frente. Perguntei o porquê disso:
- Não gosto quando esses motoqueiros passam perto de mim. Fico com medo de ser assaltada.

Respondi que com o preço de uma Harley em relação a um fusca, quem deveria ficar com medo eram eles...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Nudez na portaria

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Desde que eu me entendo por gente, minha mãe sempre morou em prédios. E vivi com ela quase 10 anos no prédio em que ela mora hoje. Além de todas as diferenças de áreas de lazer em comum com outros moradores e horários para tudo, uma coisa muito característica de prédios são os porteiros. Eles intermediam nossa relação com o resto dos moradores, com as nossas próprias visitas, com a nossa correspondência, com o nosso próprio apartamento. São pessoas comuns, que você não escolheu, e que fazem parte da sua vida.

É uma relação complicada, de dependência e rebeldia. Eles acabam sabendo de tudo a nosso respeito: que horas saímos e entramos, quem nos visita e com que freqüência, como nos vestimos, que laços temos com os outros moradores, o que nos incomoda. Às vezes eles até entram nas nossas casas; noutras, nos ajudam a fechar negócios. Por ter morado em prédio no início da adolescência, eu já brinquei com porteiro, já briguei com porteiro, já fui cantada por porteiro. Minha vasta experiência nesse assunto me diz que quanto mais distância melhor - embora essa distância nunca seja tão longe quanto a gente gostaria.

Coloquei aqui esse papo sobre portaria por causa do zumzum com a Playboy da Fernanda Young. Dizem que a Geysi também é uma forte candidata a posar nua. Ou seja, essas coisas dão a impressão de que toda mulher - de gostosinhas de vestido rosa a escritoras com ares de intelectual - gostaria de aparecer pelada. Eu sempre penso que se eu um dia posasse nua, os porteiros do prédio da minha mãe certamente veriam a revista. Me imagino na portaria, pegando elevador, e com a certeza de que agora eles sabem como sou por debaixo da roupa. Porque posar nua é isso: é dar acesso à imagem do seu corpo a qualquer um. E qualquer um nem sempre é um desconhecido que não tem acesso a você.

Daqui há alguns anos, meu corpitcho ficará flácido e enrugado. E só existirá belo e liso na lembrança de poucos.